Sunday, 25-04-2010 às 21:43 Crônicas,Históras de foca @ 623 palavras

Devo ter assistido muito “Sociedade dos Poetas Mortos” quando criança e – como bom ser altamente influenciável que sou – hoje vejo os reflexos disso na minha vida, principalmente, acadêmica. Consigo me ver perfeitamente em vários personagens, mas me divido – em especial – entre o Neil Perry (personagem do Robert Sean Leonard, que hoje faz o Wilson em House M.D.) e o Todd Anderson (personagem do Ethan Hawke).

O Neil é aquele irresponsável comedido. Ele faz as bagunças, mas se empenha quando vê que tá próximo de se ferrar. Ele é o curioso que vai atrás do anuário para descobrir mais sobre o professor, John Keating (Robin Williams). Lembranças? Pois é! Mas, principalmente, ele começa a se entregar quando se vê fascinado pelo “novo mundo” que Keating está mostrando.

Enquanto isso, Todd é constantemente lembrado de que ele é um legado, que tem um nome a zelar. Ele tem medo de mostrar quem realmente é (de ser ridicularizado?): escreve poesias, se sente motivado, mas fica em silêncio. Ele é um solitário por vontade própria, por assim dizer, já que prefere se manter afastado.

E então temos o Sr. Keating, “Oh! Captain, my Captain”. O professor que chega para quebrar a monotonia, para romper as barreiras do convencionalismo de uma escola altamente rigorosa, e com isso incita nos alunos a vontade de aprender, de ir mais longe, de buscar.

“Introduções” feitas, voltemos à realidade. Os “Sr. Keating” da vida estão sumindo, cada vez mais. Não vou nem entrar no mérito de incentivos, etc., porque não me diz respeito, mas é triste. Nos meus, até então, três semestres de faculdade tive quatro professores assim, e nenhum deles permanece na instituição. Só esse semestre foram dois, e no meio das aulas.

Não é só na vida acadêmica, mas principalmente, que eu sinto essa necessidade de desafios. Não consigo aprender com pessoas apáticas. O morno pra mim não convence, sabe? Eu preciso de algo que me provoque, que me instigue, que me faça continuar. Não gosto de sentir como se tivesse 7 anos e a “tia” pegasse na minha mão para ensinar a segurar o lápis, justamente porque eu não tenho mais 7 anos. Gosto daquelas pessoas que falam das coisas com uma paixão tão grande que os olhos brilham, que contagia uma sala de 50 alunos. Ainda existe, eu sei!

Procuro, então, “professores” com essas qualidades, para me ensinar sobre tudo e sobre qualquer coisa. Alguém que me envolva no assunto de tal forma que, ao fim da aula, eu esteja completamente exausta e, ainda assim, querendo saber mais. Alguém que espere que eu saiba do que está sendo dito, mas que não me ironize caso eu venha a questionar. Alguém que não esteja preocupado em, apenas, seguir as regras. Alguém que me desafie todos os dias e desperte em mim vontade de levantar da cama.

Apatia é contagiosa, e não há nada pior do que um mundo “bege”.

Obs: Até então eu tenho 0 (zero) faltas nas matérias dos professores acima citados. Já não dou maiores garantias com relação ao tempo que me resta neste semestre.












7 Comentários em “Grandes expectativas”


Mel M. @ 26-04-2010 - 16:19

Dois méritos ao texto: primeiro, o filme (óbvio), porque ele é fantástico. Segundo, por ser tão ótima aluna! hahaha e eu explico: percorri a minha faculdade com focas acomodadinhas, as que ainda querem que a tia pegue na mão e dê tudo mastigadinho, o pessoal que não vai atrás, que não se esforça e ainda reclama se não ganhar estrelinha no caderno! Como jornalistas, acho isso repugnante (em outras ocupações e desocupações também, mas na nossa… ai ai ai…). Quem dera ter uma Liz como colega de sala! Uff! Sempre tive que defender, sozinha, aqueles professores que todo mundo reclamava… os que falavam, que se empolgavam, que criavam debates, que criticavam, que explicavam mas continuavam (sem explicar mil vezes, sem tratar a sala inteira de marmanjos como um bando de acéfalo!) e, assim, abriam mil universos em uma só aula! Sinto falta disso. Mesmo. Desse entusiasmo, de pessoas com inteligência, articulação, gente que tem gosto por estudar e conhecer, professores que parecem poços de sabedoria! hahaha hoje em dia, nas minhas andanças e nas redações, não encontro pessoas assim com tanta facilidade! As pessoas são normais, medíocres, senso comum… irrita! Sinto falta de estar numa discussão e ouvir a outra pessoa mencionar Sartre, Kant, Weber… parece mesquinharia, mas não é. Sinto falta de professores, os que eram verdadeiros intelectuais, gente que me inspire. Depois que a faculdade acaba, fica tãão raro… é deprimente :/

Ok, tendo dito (tudo) isso… Gostaria de fazer uma pequena observação, que não é uma crítica, é mais para um lamento: senti falta de um pouquiiinho mais de comparação entre você e o Todd! Acho que puxou muita sardinha para o seu lado Neil e escondeu o outro! (o que talvez seja um reflexo, contraditoriamente, do seu lado Todd em si! Essa timidez, esse medo de se mostrar! Hunn, faz sentido…) ahh, tô viajando já! hahahahaha vamos encerrar o comentário! 😛

Um beijo, companheira queridíssima de profissão!
;*


Liz Mendes. @ 26-04-2010 - 17:38

Vou ser crucificada assim que lerem isso, mas jornalista que não dá a cara a tapa também não rola: talvez a gente precisasse ser da mesma turma. Formar uma turma “exclusiva”, eu, você e mais pessoas interessadas. As Focas da minha sala, EM GERAL, também são muito acomodadas. E isso me irrita muito!

Quando ao meu lado Todd, nem foi uma viagem da sua parte: acho que foi ele mesmo “me sabotando”. 😉

Beijo minha mais querida companheira de profissão! =*


Pedro Ferrari @ 27-04-2010 - 05:48

É, definitivamente, um belíssimo filme. Daqueles que são mais do que a mera película, daqueles que transbordam para nós, que instigam, inspiram.
Admito – Keating é, para mim, uma meta. Ir à frente de uma turma é apaixonante, uma posição privilegiada. Trata-se de reger sentimentos, batuta à mão, de um daqueles ditos “lugares de fala” privilegiados.
E incomodar. Essa deve ser a meta principal. Não exatamente mergulhar na pretensão vazia do “transmitir o conteudo”, mas sim instigar. Mostrar nuances de cores diferentes daquelas que, de tão acostumados, passamos a sequer mais notar.
Penso não se tratar de partilhar o olhar; isso é por demais arrogante e egocêntrico. Mas sim voltar-se às mesmas coisas que cercam a todos nós no passar monótono das horas e mostar como o jogo de luzes pode ser diferente – e, com ele, as sombras, os tons, contrastes, texturas.
Mover, provocar, sacudir – sempre em formas verbais.
Mel M., não, não acredito que tantos alunos assim sejam acomodados em essência. Creio que cada qual de nós tem um ponto fraco (como suas discussões sobre Existencialismo francês, Idealismo Transcendental ou primórdios da Sociologia) e é exatamente aí que os alunos (que termo infeliz) devem ser tocados, remexidos, feridos mesmo. Talvez sobre coisas banais cotidianas; ônibus, padaria, novela. Toda e qualquer “disciplina” (mais um termo infeliz) é um disciplinarização do olhar não importando sobre o que. É respirar, mergulhar, viver aquilo que se estuda. “He made their lives extraordinary”, avisa o cartaz do filme. É sair do ordinário, da ordem normal e fazer transbordar tudo isso para além dos livros e carteiras.
E essa é a beleza maior desse ofício: saber onde tocar. Diante de cada turma em particular, jogar com cores e sabores distintos. Perceber os pontos fracos e neles insistir. Enfim, dizer levando em conta para quem se fala. Os textos e autores são os mesmos (como, no caso da minha “Sociologia da Comunicação”, Featherstone, Bourdieu, Maffesoli…), mas mesmo sobre eles é possível lançar diferentes olhares e luzes.
Definitivamente, Keating é, para mim, uma meta.


Mateus de Medeiros @ 06-05-2010 - 21:36

Eu sempre me vi refletido nos dois também! Mas por motivos diferentes, um por ser melodramático e pressionado e o outro por ter usado a ‘saída de emergência’ com a merda de pai que tinha. *Esconde os pulsos cortados* Okay, brincadeiras a parte, cof, cof, eu também sinto falta dos poucos Sr. Keating que tive na minha vida, mas acredita que em uma ocasião eu subi numa cadeira e falei “Oh Captain, my captain” pra ela? Choramos demais da conta! Eu sou muito suspeiuto para falar que o cinema e seus clássicos deixam imagens em nossas cabeças que parecem incompletas até se fazer igual na vida real; não dizendo que a cena final do filme tenha sido falha, mas depois de subir numa cadeira e agir daquela forma, o filme te passa uma mensagem mais clara e inesquecível, e a Sociedade com certeza está incluso nesse leques de filmes “Complete você mesmo”. Continuo também na minha procura de Srs. e Srªs. Keating, e, é claro, de outras Sociedades dos Poetas Mortos; bom saber que existem semelhantes no mundo… Adorei o post :*


Liz Mendes. @ 06-05-2010 - 21:40

Meu amor grandão! *_* Pois é, sabemos como andamos penando né?! Mas hão de haver outros milhares de Srs. e Srªs. Keating por aí. Na nossa vida inclusive (por favor!!). E nós teremos um ao outro e a nossa sociedade, que não é de poetas mortos mas serve muito! XD


arquiduque @ 18-07-2010 - 02:03

Oi.
Eu tenho um professor assim. Ele é incrivelmente inteligente e a mulher dele, idem. É minha orientadora. Penso que eles são a definição perfeita de encontros de almas, gênios.
No dia do encerramento da aula dele, segunda-feira, ele avisou que após sete períodos nos acompanhado (são oito, no total), nos deixaria. Eu lamentei muito, pois ele será uma das pessoas que quando eu estiver velhinha e vierem me perguntar sobre as pessoas que me ajudaram na minha formação intelectual e pessoal, terá o nome citado.
Outra, que não é minha professora (até porque mora longe) mas que me ajuda a crescer intelectual e moralmente, é uma amiga de SP. Ela sempre me ajuda, faz eu querer ser melhor. É do tipo de gente que desperta a sua índole mais generosa e agradável, sabe?
Penso que a vida sem essas pessoas seria seca, meio à toa. Claro que a família é importante. Mas e os outros? E aqueles com quem passamos uma boa parte de nossa vida? Não são apenas professores na hora de nos ensinar as disciplinas da grade curricular. São tamém, e talvez principalmente, nossos instrutores de caráter e boa conduta. E graças aos deuses, disso eu estou bem servida.

Beijinho.


Liz Mendes. @ 18-07-2010 - 02:11

Pois é, Vera. Compartilho essa sensação com você. Olha só, eu acabo muitas vezes passando mais tempo com o pessoal “da rua” do que com minha família. Então, querendo ou não, compartilho com eles grandes momentos.

Fazia tempo que eu não via esse post (sempre releio meus posts). Mas esse teve motivo especial e tudo. Como escrevi, perdi duas das melhores professoras que já tive, nesse período. Ambas saíram da faculdade, cada uma com seus motivos pessoais. Ambas que eu considerava fortemente para serem minhas orientadoras (apesar de “ter certeza” de que só uma das duas aceitaria).

Esse semestre que passou foi complicado. Foi um semestre de decisão, agora ou nunca. Não sei se tomei a direção certa, mas…

Beijinho =*