Monday, 10-05-2010 às 01:52 Críticas,Livros, revistas e afins @ 615 palavras

Engraçado pensar que a biografia de uma das melhores e maiores escritoras “brasileiras” (mesmo que não de nascimento mas, como lembrado diversas vezes no livro, de coração) foi escrita por uma americano. Um americano chamado Benjamin Moser que, em seu próprio site, diz ser escritor, editor, crítico e tradutor. Não sei quanto à edição e tradução, mas como escritor e crítico, ele se sai bem.

"Clarice,", Benjaim Moser, 647 páginas, Editora COSACNAIFY

Clarice,” (lê-se Clarice vírgula) não é para qualquer leitor, a começar por sua extensão: são 558 páginas da biografia, em si, mais 56 de notas e outras 28 de complementos. E ainda que o tema – Clarice Lispector e todo o mistério de sua história – possa atrair curiosos, é provável que se pense duas vezes, levando em consideração o preço (até pouco tempo o livro custava R$79, mas alguns sites já estão vendendo-o a, cerca de, R$54). Caso ainda restem dúvidas, o livro é denso. Muito denso.

Clarice, a escritora, é do tipo que divide os extremos: ou se ama, ou se odeia. É difícil ficar inerte à seus textos, à sua história. E, não mais díficil, é traduzir isso tudo em um livro. Se “Clarice,” peca é por, em determinados momentos, ser muito didático ao contextualizar o país em determinadas épocas – como na Ditadura. Mas isso pode ser porque sou brasileira e tive incansáveis aulas de História do Brasil, da mesma forma que para um ucrâniano pode ser chato ter que ler tantas vezes sobre os pogroms e coisas do tipo.

O livro, na verdade, pode parecer uma grande – muito grande – reportagem, levando-se em consideração o número de citações, entrevistas e dados técnicos – aparentemente – bem apurados. Além disso, tem-se uma única foto, que marca o fim do livro e o começo das notas. É a mesma reproduzida na capa: Clarice, sentada à maquina, escrevendo.

A biografia não se limita à contar a vida da autora. Em alguns capítulos há a contextualização e análise dos livros e textos, com o período em que foram escritos e/ou publicados. Eis onde aparece o lado crítico de Moser, que não se limita e – sutilmente -, envolve o leitor em uma crítica quase pessoal de alguns textos.

O casamento, o divórcio, os filhos, os livros, as mudanças, as cidades, os amigos e as saudades de Clarice são retratadas com tamanha firmeza que fica difícil imaginar que o autor não estivesse ao lado dela em determinados momentos. Fatos conhecidos sobre a vida da escritora – como o incêndio que a deixou com cicatrizes nas mãos – e outros mais reservados – como os problemas de seu primeiro filho -, e a forma como estes acontecimentos são contados, fazem com que o leitor se prenda à leitura sem se cansar.

*: A frase do título foi retirada da música Para todas as coisas interpretada pela cantora Ana Cañas.












1 Comentário em “Para uma mulher, Clarice*”


giuliabatelli @ 15-05-2010 - 20:38

Achei muito interessante o seu post. Me deu vontade de ler o livro. Muito bem escrito, amiga. Você arrasa! =) Adoro ler o que escreve.