Tuesday, 27-11-2012 às 23:43 Críticas,Livros, revistas e afins @ 1621 palavras

Já perdi as contas de quantas vezes eu comecei a escrever essa resenha. Considerando que li “A Culpa é das Estrelas” (The Fault in Our Stars) pela primeira vez, ainda em inglês, em algum momento em julho, dá pra se ter uma ideia. Isso sem contar as milhares de vezes em que comecei a escrever, mentalmente, mas nunca passei para o papel à tempo.

O livro, em português, me acompanhou duas vezes, em dois momentos, e devorei cada palavra. Da primeira vez, meu exemplar, ganhado durante a semana #ACulpaÉDoJohnGreen (com direito à pingente de nuvem com “OKAY.” escrito), ainda no frenesi dos últimos acontecimentos, das novas pessoas e todas as possibilidades. A segunda, alguns meses depois, quando o livro do book tour passou por mim. Passou por mim e foi de carona passear em Minas. Pois é, na semana em que ele chegou, eu estava de viagem marcada e foi uma ótima companhia.

A questão é, assim como várias pessoas já levantaram por aí: quanto mais se ouve sobre um determinado assunto, mais se cria expectativas. E isso é ruim. Muito. Porque expectativas correspondem à enormes chances de frustração. Eu mesma, acho que frustrei algumas pessoas por aí, de tanto falar de ACedE (mais sobre isso, daqui a pouco).

A história, em si, é simples: garota conhece garoto, eles se apaixonam e existe um problema que atrapalha a relação. Mas não é um problema qualquer. Hazel e Gus se conhecem em um grupo de apoio a pessoas com câncer. Pois é. Só que, ao contrário das milhões de historinhas de “como o amor supera tudo”, este é um livro que traz uma visão quase realista do assunto. O “quase” fica por conta da maturidade dos personagens, é claro.

Créditos ao Tumblr.

Não sei, mas à primeira vista, no encanto de tudo que cercava este livro, fui completamente alienada pela história, como se fosse impossível que ali morasse algum defeito. Fato é: moram vários. Quando a Intrínseca, editora responsável pelo lançamento do livro no Brasil, enviou os “livros” a serem perdidos, uma das nerdfighters que recebeu a caixinha aqui em Brasília, me deu cinco exemplares para serem perdidos. Antes de perdê-los, emprestei uma das cópias para uma professora e foi uma experiência bastante única.

Deixe-me contextualizar: tento manter uma relação bastante amena com todos meus professores, o que, obviamente, nem sempre acontece. Quem me conhece, sabe da minha fama de “brigona” e eu faço juz à ela. Logo, conta-se nos dedos os professores que, ao longo da faculdade, não tive atritos (em minha defesa, sempre são aqueles justos, educados e bons que “se salvam”). Ela se enquadra neste grupo. Não bastando, no começo da faculdade ela morava na quadra debaixo da minha, então virava e mexia eu voltava para casa de carona com ela. No worries! Seis semestres separam a época em que fui sua aluna pela primeira vez e o fato dela ter voltado a ser minha professora neste último suspiro de curso. Nesse meio tempo, bilhões de coisas aconteceram: ela se tornou mãe pela segunda vez, eu cresci, ganhei anos e experiência no currículo, coisas que, acredito eu, tenham influenciado o que se segue.

A cada semana que eu chegava em sala, nós passávamos alguns minutos conversando sobre a leitura. Por se tratar de uma matéria prática, era difícil ter sala cheia, o que nos permitia desfrutar esses momentos. Quando ela já estava terminando de lê-lo, aconteceram alguns problemas em sala e, quando fomos conversar sobre isso ela me disse algo que provavelmente não vou esquecer tão cedo. “Lendo um livro que tem tanta importância para você, eu sinto que consigo entender um pouco mais o seu jeito, ‘você'”. E acredito que isso possa, realmente, ter acontecido.

Foi ela, inclusive, uma das principais responsáveis por me fazer enxergar um pouco mais além da cegueira alienada em que eu estava. Assim, quando o livro chegou até mim e tive o prazer de relê-lo, pude ser um pouco mais crítica. A principal queixa dela era quanto a  “firmeza” dos personagens, sobre as posições sempre muito carregadas deles, levando tudo no 8 ou 80. Além dela ter achado que, no começo, tudo parecia um pouco forçado, os diálogos, o modo de agir e pensar. Eles têm 16 anos, pelo amor de Deus! (Ela não proferiu essas exatas palavras, mas, juro, foi o que ela quis dizer)

Devo admitir que concordo, mas parcialmente. Concordo com fato de que Hazel e Gus são extremistas e que, aos 16 anos, levar a vida à ferro e fogo (essas palavras ela realmente disse!) é um tanto quanto complicado. Concordo que muitos dos problemas que eles passam na história, vem disso. E acho que talvez isso tenha ajudado ela a me entender um pouco melhor porque eu sou, completamente, 8 ou 80. Aos 23 anos de idade, vira e mexe, eu ainda tenho atitudes piores que as deles, aos 16. Entretanto, tenho que discordar quando ela diz que os diálogos, o modo de agir e pensar, parecem forçados. Acredito eu que, aos 16 (ou aos 23, for what matters), nós acreditamos ter certeza de tudo no mundo, e isso não quer dizer que estamos errados, apenas que, muitas vezes, não conseguimos nem mesmo enxergar nossos erros.

(Em um parênteses: devo admitir que odeio pessoas que usam a “carta da idade” para justificar argumentos. “Ah, porque quando você tiver a minha idade, você vai entender!” Por favor! Idade é apenas um número e, infelizmente, não tem absolutamente nada a ver com maturidade. E, sim, esse é um parênteses quase que patrocinado para uma outra professora que acha que idade é alguma coisa. Coitada!)

Em um segundo ponto, acho que meu principal apreço pelo livro vem da identificação. Não só da personalidade dos personagens, mas toda a questão de que eles não têm medo de morrer, eles têm medo de serem esquecidos, de passarem por esse mundo como se não fosse nada. Eu gosto de pensar que eu tenho deixado boas marcas nas pessoas e que, sei lá, daqui 10 anos por algum motivo essa mesma professora vai reler o livro/vê-lo em um sebo/ter notícias minhas e, naquele momento, ela vai se lembrar do que sentiu com toda a minha loucura de “esse livro é incrivelmente bom”.

Não seja uma marca ruim, pfvr.

O que nos traz, imediatamente, ao últimos ponto que eu creio que precise ser mencionado. Hazel e sua paixão pelo escritor e por “Uma Aflição Imperial”, pode ser traduzida em muito do que eu sinto pelo John.

Anyway… acho que um dos principais motivos de eu ter protelado tanto para escrever tudo isso (além dos óbvios, como TCC, viagens, ansiedades e euforias) foi meu apego. Eu não sou uma pessoa parcial quando se trata de John Green. Porque eu, que não consigo escolher nada como “preferido”, ostento há alguns anos que Looking for Alaska é o ultimate book on my shelf. E não importa o quanto qualquer outra pessoa me diga que ele é um lixo, ou que é perfeito: minha opinião permanece inalterada (embora isso não queira dizer que ele é perfeito, ele tem, sim, suas falhas, mas acredito que gostar de algo é quando você consegue passar por esses detalhes e, ainda assim, ver as partes boas como o importante).

Da mesma forma, não acredito que esse seja o tipo de leitura para qualquer pessoa. Sei que muita gente deve odiar e falar “Aff, que lixo!”, além de considerarmos que o lançamento do livro foi completamente ofuscado por pessoas fogosas e seus 50 tons de vai-pra-longe-de-mim (e, inclusive, imagino que, nesse momento, essas mesmas pessoas devem estar falando o mesmo de mim E EU REALMENTE NÃO ME IMPORTO).

Quanto à mim? Eu chorei, ri, senti o coração apertar, e me lembrei de como, 4 anos atrás, no início da faculdade, eu tive conversas como a Hazel tem com Gus e me senti leve e bem, como se tivesse cumprido com uma fase imprescindível da vida.

Se posso dizer (sem que ela me leia ou queira me matar), a professora confessou que escorreu uma lagriminha por lá também. (E eu fiquei com sentimento de achievement unlocked, que ela não me ouça/leia).












1 Comentário em “[Resenha] A quem culpar?”


Beatriz @ 09-01-2013 - 04:32

Oi,
eu adorei a resenha!
A culpa das estrelas, assim como John Green, são amores da vida. Eu também sofri do mesmo problema que você, eu ainda não escrevi uma resenha do livro, porque eu simplesmente não consigo escrever o quão importante esse livro foi e é na minha vida. Acho que ele tem defeitos, sim, mas concordo com o que você disse, que quando a gente gosta de algo, nós conseguimos passar por cima das falhas e ainda sim ver o lado bom do livro. Eu, realmente, não me importo se alguém vai dizer que ele é muito ruim, porque o que importa é o que eu sinto ao lê-lo, são as coisas que ele me ensina.
Todos os dias eu agradeço mentalmente pelo John Green ter escrito tanto A culpa é das estrelas, quanto Quem é você, Alasca? porque os dois me ensinaram tanto e se tornaram tão importantes na minha vida, que seria impossível quantificar.
Adorei tudo aqui!
Beijos